Ser-se homem – e mulher – condiciona a literacia em saúde e a procura de cuidados. Esta é a principal ideia da conferência intitulada Literacia em Saúde e Acesso aos Cuidados de Saúde nos Homens: Desafios e Oportunidades para a Saúde Global, que se realizou no ESP-IUSAM no dia 28 de Fevereiro de 2020.
A conferência reuniu investigadores e atores dos sistemas de saúde de diversos países, os quais enquadraram e demonstraram a relevância do género para compreender como as pessoas recebem e fazem uso da informação em saúde e, assim, procedem a escolhas individuais.
A análise do género na saúde não é recente. A diferença é que hoje há uma maior consciência da necessidade de integrar esta relação em políticas e intervenções mais inteligentes. A inteligência significa maximizar resultados com a menor utilização possível de recursos.
Em matéria de saúde todos devem importar: homens, mulheres, crianças, idosos, pessoas que lidam com doenças e pessoas que procuram o seu bem-estar. Os trabalhos apresentados nesta conferência chamaram à atenção para este facto após décadas de algum silêncio sobre a situação vivida pelos homens.
Através de exemplos de doenças sexualmente transmissíveis, cardiovasculares e também da tuberculose, e com base em olhares interdisciplinares que cruzam a Saúde Global, a Antropologia ou as Políticas Públicas, foram debatidos estudos realizados sobre homens em países africanos, como o Malawi e Moçambique, ao mesmo tempo que foi apresentada informação mais sistematizada sobre o modo como “ser-se homem” condiciona padrões epidemiológicos. Comparativamente às mulheres, os homens recorrem menos a serviços de saúde, desistem mais facilmente do acompanhamento terapêutico e apresentam níveis de literacia em saúde mais baixos. Estes fatores conjugados refletem-se na maior incidência de morbilidades, piores resultados de saúde e esperança de vida mais baixa entre os homens.
Os estudos apresentados não só corroboraram estas tendências em diferentes partes do mundo, incluindo Portugal, como também trouxeram pistas para compreendê-las. Está em causa o modo como as pessoas pensam e escolhem. Este entendimento continua a refletir-se pouco em políticas de promoção da saúde e prevenção da doença. Tantas e tantas vezes, campanhas são lançadas ignorando o modo como os destinatários recebem e utilizam essa informação no seu dia-a-dia. Já não basta dizer que os indivíduos devem fazer boas escolhas, mas o que os sistemas de saúde podem fazer – e têm feito – para que isso aconteça.
Uma das ideias é que é preciso voltar a inovar no desenho e implementação de programas de saúde. Alcançado o consenso que a intervenção em saúde tende a ser tanto mais eficaz quanto melhor identificar públicos-alvo específicos, o próximo consenso deverá ser que ainda falta informação sobre: 1) se as intervenções são apropriadas pelos destinatários pretendidos, 2) o modo como são apropriadas pelos destinatários pretendidos, 3) como os destinatários pretendidos utilizam-nas no seu dia-a-dia, e 4) efeitos não esperados dessa utilização. Por outras palavras: falta acompanhar as pessoas ao longo das intervenções em saúde, tendo como objetivo desse acompanhamento medir o grau de eficácia com que alteram ou não comportamentos e porquê.
No que diz respeito à saúde no masculino, a eficácia das intervenções reside num elo de ligação entre sistemas de saúde e comportamentos individuais que tem estado ausente. Podemos-lhe chamar “masculinidades”, mas o que importa perceber é que traduz representações, expectativas, comportamentos e escolhas das pessoas baseadas no facto de serem homens. E esta é a clássica divisão entre género e sexo. Género traduz modos de pensar fixados social e culturalmente sobre o que é ser-se homem e mulher, e que são ensinados a homens e mulheres. Por isso, traduzem escolhas individuais que refletem valores e normas. Se há valores e normas relativamente transversais, outros valores e normas podem ser mais específicos a grupos. É nesta confluência entre o geral e o particular que resultam modos complexos de viver o(s) género(s).
Foi apresentada evidência sobre esta complexidade. Em concreto, como a masculinidade é vivida pelos homens, mas também por profissionais de saúde e, porque não, pelas mulheres. Os casos relatados mostram alguma preponderância da masculinidade ligada à força, à virilidade e ao sustento da família, o que explica a persistência de alguns padrões epidemiológicos e resistência na alteração de comportamentos considerados evitáveis, isto não obstante a aposta generalizada no aumento da informação disponível.
Portanto, deverá ser com base na compreensão da masculinidade (e claro, da feminilidade), entendida enquanto elo de ligação entre sistemas de saúde e comportamentos individuais, que se podem desenhar políticas e intervenções mais inteligentes. O debate foi ainda consensual quanto à necessidade de abordagens mistas para a recolha de dados desta natureza. Saber como pessoas se comportam e fazem uso da informação disponível no seu dia-a-dia requer uma integração entre metodologias quantitativas e qualitativas que devem ser aplicadas ao público-alvo em estudo, mas também a todos aqueles com quem o público-alvo se relaciona.
Em suma, pensar a literacia em saúde e a procura de cuidados através do modo como as pessoas pensam sobre si mesmas contribui para o desenvolvimento dos sistemas nacionais de saúde e da discussão em torno da saúde global. Reforça a ligação entre indivíduos e determinantes sociais e, nessa medida, representa mais uma ferramenta cognitiva e de intervenção para reduzir as disparidades globais em saúde.
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